A saúde bucal interfere na saúde do coração ?

 In Profissionais da saúde

Conheça a opinião de um expert mundialmente reconhecido

Essa entrevista é uma resenha obtida durante a minha estada em Boston ? 2009 e uma mescla com o material disponibilizado pela AAP, referente ao cardiologista Dr. Paul Ridker, que foi o principal destaque na Reunião Anual da Academia Americana de Periodontologia, daquele ano.

A dedicação desse médico, mundialmente reconhecido, e de um grupo de pesquisadores no tema é parte importante para o avanço da compreensão sobre o papel da inflamação nas doenças periodontais, nas alterações do corpo e de suas conexões. Particularmente juntei informações pessoais que compilei, enquanto assistia a essa conferência em Boston, que foi um verdadeiro marco na história da medicina periodontal e da odontologia.

Paul Ridker, MD, PhD é Professor de Medicina da Harvard Medical School e diretor do Centro de Prevenção da Doença Cardiovascular, do Brigham and Womens Hospital. Ridker foi o orador principal da Academia Americana de Periodontia da reunião anual em Boston, em setembro de 2009.Recentemente, foi considerado pela Revista Time/EUA ? uma das 100 pessoas mais importantes para a solução dos problemas mundiais de saúde.

Por que o doutor considerou importante falar na abertura do encontro da American Academy of Periodontology de 2009?
Dr. Paul: Eu tive a oportunidade de trabalhar com os representantes da American Academy of Periodontology para o desenvolvimento de um documento de consenso sobre a aterosclerose, doença cardiovascular e doença periodontal   que foi publicado simultaneamente no The American Journal of Cardiology e Journal of Periodontology , em Junho de 2009. Tenho a absoluta crença de que podemos ampliar as formas de prevenir as doenças cardíacas, mas tem que ser feito com um traço muito mais amplo do que costumamos usar. Pacientes com doença periodontal parecem dispor de um risco aumentado para a doença de coração devido à inflamação sistêmica, de modo que a hipótese foi levantada, estudos praticados, até o ponto de investigarmos se o tratamento da doença periodontal pode ajudar a reduzir a incidência de doença cardíaca. Gostaria de encorajar a comunidade da odontologia para continuar a parceria com a área médica para a elucidação desse link.

Vários estudos têm indicado que a doença cardiovascular pode ser conectada a outros quadros de morbidade, incluindo doenças periodontais. Baseado em suas pesquisas, o que o faz acreditar que estas ligações existem?
Dr. Paul: Junto com o colesterol, a inflamação é um determinante fundamental para a doença cardiovascular. O perfil inflamatório é fato preponderante para acelerar a trajetória da doença periodontal e de outras doenças crônicas, como artrite reumatóide, psoríase e ao aumento de risco cardíaco. Falei com vários profissionais de saúde, fora de cardiologia, sobre este mesmo tema. Eu falei para reumatologistas, porque seus pacientes com artrite compartilham a mesma característica reativa perante a inflamação que compartilham pacientes com doenças cardiovasculares. Eu tive essas discussões com dermatologistas, pois o paciente com psoríase tem uma resposta inflamatória sistêmica crônica. Na doença periodontal, você está lidando com a inflamação na cavidade bucal. E assim, a partir da perspectiva de um cardiologista comprometidos com a hipótese de inflamação, todos esses distúrbios têm em comum uma anomalia muito fundamental devido ao perfil  descontrolado de inflamação. Clinicamente, a inflamação pode ser detectada usando um teste barato e simples de sangue para a sensibilidade a proteína C reativa (PCR). Chama a atenção que alguns estudos encontram sinais de proteína C reativa alta, em doentes periodontais desprovidos de sintomas cardíacos ? até aquele momento.

Como observa a compreensão dos profissionais de saúde sobre a inflamação e sobre a  resposta inflamatória?
Pesquisas na última década mostram que existem múltiplas vias inflamatórias, relacionadas com as doenças vasculares, e vários biomarcadores de inflamação, incluindo citocinas, interleucinas e biomarcadores de adesão celular ? que se apresentam elevadas entre os grupos de alto risco vascular.Em mais de duas dezenas de estudos no mundo inteiro, aparentemente, homens e mulheres saudáveis com níveis de PCR superiores a 3 mg / L foram listados como pessoas com 60% mais riscos de doenças cardíacas no futuro e com a mesma magnitude do risco que nós associamos com o colesterol alto ou a pressão arterial elevada.

Como a comunidade científica da periodontia pode contribuir e avançar no conhecimento da inflamação e do seu link com a doença cardiovascular?
Tradicionalmente, os principais fatores de risco para doença cardiovascular já foram listados. É o caso da idade, sexo masculino, hiperlipidemia, os que vivem com diabetes e hipertensão e uso de tabaco. Nós sabemos agora que esta doença é bem mais complicada de se estabelecer e, como tal, a comunidade cardiovascular teve de avançar além desses fatores de risco importantes para entender o que está acontecendo com nossos pacientes. Os novos fatores de risco que nós usamos são os marcadores de inflamação (PCR) e os marcadores de risco genético (história familiar). A comunidade científica também deve repensar a doença periodontal, o papel de outros fatores de risco ? especialmente os ligados com a inflamação – na progressão dessa doenças do aparelho circulatório e compreender mais sobre o efeito real de tratar a doença periodontal, para afetar outros estados patológicos ? além do necesário quadro bucal. As questões-chave das pesquisa para a comunidade periodontal são: é possível aprimorar os cuidados periodontais a situações que reduzam o risco cardiovascular? Ao reduzir a inflamação bucal, como resultado da doença periodontal, diminuiremos a chance de desenvolver doença cardiovascular?  Estudos randomizados levarão a novas perspectivas desse tópico? É possível que uma das chaves para a prevenção das doenças cardiovasculares situe-se nesta especialidade odontológica?

Dentistas e médicos são muito conscientes de que a prevenção desempenha um papel importante na redução do risco para a (s) doença(s). Como a nossa compreensão do impacto da inflamação, pode influenciar a aplicação dos tratamentos preventivos que oferecemos aos nossos pacientes?
Recentemente, ocorreu uma investigação importante com 17.802 homens e mulheres – com baixos níveis de colesterol, mas níveis elevados de PCR. Nesse protocolo, chamado Júpiter, a metade do grupo recebeu tratamento com estatina e a outra parte com placebo. O que nós avaliamos é que a terapia com estatina, dada àqueles com PCR alto, resultou em uma redução de 55% no ataque cardíaco, uma redução de 49% no curso, e uma redução de 47% nas cirurgias de bypass ou angioplastias coronárias. Isto é crucial para a saúde pública – a melhor maneira de economizar dinheiro é buscar prevenir a doença, em primeiro lugar. Futuras pesquisas podem mostrar que a prevenção da inflamação ? em quaisquer níveis – pode reduzir significativamente o risco para outras doenças além da doença cardiovascular.

O que precisa acontecer para a comunidade da cardiologia e a comunidade odontológica colaborarem mutuamente para abraçar o tema da inflamação e da resposta inflamatória, na sua rotina de investigações conjuntas e o que isso significa para a saúde do paciente?
Cardiologistas e profissionais da odontologia podem trabalhar juntos para realizar um ensaio clínico randomizado que leve pacientes de alto risco para doenças cardiovasculares, com sinais de doença periodontal a um tratamento da doença periodontal, como um esforço para reduzir a inflamação da boca e do corpo. Se as taxas de evento cardiovascular reduzirem, nós aprendemos duas coisas. Em primeiro lugar, que o tratamento bucal é uma grande coisa para a saúde dos nossos pacientes ? o que parece claro para a comunidade da saúde, mas ainda é negligenciado por parte importante dos pacientes e questionado pelos mais céticos da área de ensino e pesquisa. Em segundo lugar, teríamos dado um grande passo para o entendimento sobre o valor de tratar a inflamação ? em qualquer nível – dentro da grande arena de cuidados elementares à saúde. Acredito firmemente que a única maneira de chegar a este ponto é através da elaboração de mais ensaios clínicos randomizados, com protocolos sérios elaborados conjuntamente por pesquisadores médicos e dentistas.

Prof. Rodrigo Guerreiro Bueno de Moraes
Cirurgião-Dentista | Mestre em Odontologia pela Universidade Paulista | Membro da Sociedade Brasileira de Periodontia e da American Academy of Periodontolog

Fonte: Revista Time

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