Dentistas e pacientes podem sempre mais.

 In Profissionais da saúde

Em 1995 iniciava a minha vida profissional pela odontologia e estagiava na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP). Mas já vivia na profissão, pois, meu pai ? era profissional do segmento e coordenava o curso de graduação em periodontia da PUCCAMP. Ele sempre foi apaixonado pela saúde e pela possibilidade de ajudar as pessoas através da odontologia, fator determinante para a minha dedicação como dentista .

Gostaria de ressaltar o ano de 1983, quando meu pai era carinhosamente chamado de Prof. Chico. Nesta época, todas as sextas-feiras, ele orientava e atendia pessoas carentes que necessitavam de um auxilio especial, pois, não tinham condições de buscar atendimento na rede privada.

Foi em um desses atendimentos que o Prof. Chico conheceu uma senhora cega que necessitava de um diagnóstico preciso para o tratamento bucal.

Após uma primeira conversa com o grupo de estudantes que o acompanhavam, o professor avaliou a boca da paciente e notou grande acúmulo de bactérias sobre os dentes. Apesar de livre das cáries, a senhora apresentava as gengivas extremamente inflamadas e sangrantes ? o que de imediato foi associado com a falta de habilidade e de ?condições? para a prática da higiene bucal.

Após a avaliação, o Prof. Chico orientou o marido a realizar a escovação adequada na senhora e ressaltou a importância do uso das escovas interdentais e do fio dental para a limpeza dos dentes. Após a entrega de um kit de higiene bucal completo e da orientação, professor e alunos conversaram e concluíram que se tratava de um caso difícil pela condição da paciente.

Na semana seguinte a paciente voltou e a situação estava mais complicada com as inflamações das gengivas ainda mais perceptíveis.

Ao assistir a insistência do aluno em auxiliar o marido sobre a utilização das técnicas descritas no primeiro encontro, tendo a senhora como ?modelo de ensino?, o professor percebeu que o problema não era técnico, e sim relativo a aceitação pessoal da situação.

Assim, o professor resolveu ?mudar a forma de ensino?. Deixaram de insistir no aprimoramento técnico do marido para a higienização dos dentes e apostar no da esposa. Afinal de contas a percepção táctil de quem perde a visão torna-se ainda mais aguçada pela maneira como se relacionam com o mundo.

Após alguns minutos de conversa e a insistência na repetição e no treinamento da paciente – a melhora era perceptível e assim foi acontecendo gradativamente em cada encontro.

Ao final do tratamento obteve-se a erradicação das inflamações das gengivas, uma saúde bucal satisfatória e a sensação de bem estar que perdurou por muitos anos.

Lembra que no começo do texto disse do meu estágio de 1995? Pois bem, após ouvir as muitas histórias daquela senhora, tive a oportunidade de conhecê-la. Sua boca estava ótima, seu acumulo de placa bacteriana sobre os dentes era baixo e a sua motivação me fazia sentir naquela terceira clínica de 1983…

Hoje tenho certeza de que pacientes e dentistas trabalhando juntos podem sempre mais…

OBS: Estima-se que 10 a 15% dos brasileiros tenham alguma necessidade especial ? conforme dados do Ministério da Saúde. Se você quer saber mais sobre a odontologia dirigida a essa parcela da população visite o link do GAU – um dos nossos apoiadores – ou a página da ABOPE (Associação Brasileira de Odontologia para Portadores de Necessidades Especiais): www.abope.com.br . Se você ainda tem dúvidas sobre o que os pacientes e os dentistas podem e devem fazer juntos, veja o vídeo abaixo:

 

 

Prof. Rodrigo Guerreiro Bueno de Moraes
Cirurgião-Dentista | Mestre em Odontologia pela Universidade Paulista | Membro da Sociedade Brasileira de Periodontia e da American Academy of Periodontology

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