Era uma vez a fada do dente…

 In Público em geral

A doutora Mayana Zatz é considerada uma das grandes geneticistas do país. Como colunista da Revista Veja e do Veja On – line, fomenta conhecimento e informação ao público. Nesta entrevista com a Dra. Irina Kerkis, que realizou na Veja On -line, ela apresenta – de forma clara – alguns caminhos trilhados pelos bancos de células – tronco, que pretendem armazenar este material para uso futuro, em eventuais terapias gênicas. Leitura recomendada a dentistas e aos curiosos pelo tema:

As possibilidades de tratarmos no futuro várias patologias com células-tronco (CT) geraram uma nova demanda: o estabelecimento de bancos de células-tronco adultas que podem ser obtidas de várias fontes, tais como cordão umbilical, polpa dentária e tecido adiposo entre outras. Na prática elas precisam ter duas características: ser de fácil obtenção e abundantes. Além disso, uma pergunta fundamental é: para o que servem? Qual é o potencial de células-tronco de diferentes origens de se diferenciar em tipos celulares e tecidos que precisam ser substituídos. É o futuro da medicina regenerativa. Na semana passada, enquanto eu participava de um Congresso em Nápoles, na Itália, a mídia noticiou a criação de um banco pioneiro de células-tronco de polpa dentária na Universidade de São Paulo. Na realidade, trata-se de mais um. Além da nossa equipe do Centro do Genoma da USP, existem vários grupos no Brasil que vem trabalhando com CT de polpa dentária há vários anos.

No Brasil, a primeira cientista a trabalhar com CT de polpa dentária foi a Dra. Irina Kerkis, que na época era nossa colega no Instituto de Biociências da USP e hoje é pesquisadora do Instituto Butantan. A sua primeira publicação científica internacional sobre o assunto data de 2006. Desde aquela época, ou até antes, vários grupos de pesquisadores vinham trabalhando com essas células.

O que temos feito no Centro do Genoma da USP?

Além do potencial futuro de regenerar tecidos, as CT obtidas de pacientes com doenças genéticas, constituem um material precioso para pesquisas. Elas permitem que estudemos como os genes se expressam nos diferentes tecidos, porque afetam um órgão e não o outro, porque pessoas com a mesma mutação podem ter quadros clínicos totalmente diferentes. Alguns são muito afetados e outros não. Se conseguirmos entender o que protege algumas pessoas dos efeitos deletérios de uma mutação, abriremos novos caminhos para tratamentos. Estamos pesquisando também o potencial de CT obtidas de diferentes fontes de formar osso, células musculares e neurônios.

Pode-se notar que o Centro do Genoma está crescendo…

Em 2008, tivemos dois novos grandes projetos aprovados (financiados pela FINEP, CNPq, Ministério da saúde e FAPESP) para construir um novo instituto ligado ao Centro do genoma. Ele abrigará o Instituto Nacional de Células-Tronco em doenças genéticas (sob a minha coordenação) e o Centro de Terapia Celular (coordenado pela Dra. Maria Rita Passos-Bueno). Será um instituto pioneiro integrando as pesquisas do genoma humano com células-tronco. Como já temos centenas de linhagens de células-tronco armazenadas, esse novo centro permitirá expandir muito a nossa capacidade atual.

Quais são os nossos principais resultados em pesquisas?

Estamos injetando diferentes células em modelos animais: camundongos, ratos e um modelo canino que tem uma distrofia muscular progressiva. São estudos classificados como pré-clínicos. São pesquisas demoradas porque, para termos segurança sobre os resultados, os animais precisam ser seguidos por longo tempo. Mas são fundamentais antes de começarmos os ensaios clínicos. A primeira observação é que as CT se comportam diferentemente quando cultivadas somente no laboratório (in vitro) e quando são injetadas. Por isso a importância dos estudos pré-clínicos antes de pensarmos em tratamento.  As nossas pesquisas já mostraram que CT de tecido adiposo são eficientes na formação de tecido muscular em modelos animais e que o tecido do cordão umbilical é uma fonte muito melhor de CT do que o sangue do cordão. Por isso continuo afirmando que só vale a pena armazenar o sangue do cordão umbilical em bancos públicos.

E as pesquisas com CT de polpa dentária?

O trabalho liderado pela Dra. Maria Rita e Dra. Daniela mostrou em modelos de ratos que elas são muito eficientes na reconstrução óssea. Por outro lado, elas não parecem tão boas como as do tecido adiposo para formar músculo. Além disso, elas têm se mostrado muito importantes para derivar células neuronais de pacientes com síndromes neurocomportamentais como a síndrome de Angelman e de Prader-Willi (sob a coordenação da Dra. Celia Koiffmann) e ajudar a desvendar os mecanismos responsáveis por essas síndromes.

Quem quer guardar as células-tronco de dentes de leite?

O Genoma tem recebido muitas solicitações de pessoas querendo que guardemos as CT da polpa dentária de seus filhos em um banco. São de crianças que têm familiares com alguma doença genética, ou pessoas que não tem nenhum problema, mas que decidiram não congelar o cordão umbilical de seu bebê ao nascimento. Por enquanto, são somente para pesquisas. Mas as pessoas ficam felizes quando digo. Se você não congelou o cordão não se preocupe, você pode obter CT dos dentes de leite do seu filho. E são vários. Além disso, você pode tranqüilizar seu filho: só queremos a polpa do dente. Não vamos competir com a fadinha do dente.

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