Fronteiras da medicina e odontologia.

 em Público em geral

Já virou jargão desse blogueiro e de outros, a valorização do multidisciplinar visando o bem estar dos pacientes.

O discurso e o reconhecimento disso vem do médico, do dentista, dos nutricionistas, dos psicólogos, dos enfermeiros e de muitos outros profissionais que reconhecem que ninguém promove saúde sozinho.

Poucos,entretando, foram capazes de avaliar como profissionais de saúde se portam diante do tema. Ao ler o texto, muito bem escrito pelo Prof. Titular da USP em Periodontia, Dr. Giuseppe A. Romito, senti uma enorme identificação com seu ponto de vista , diante da realidade que percebo para o assunto no Brasil e no mundo.

A pergunta é simples: “Estamos verdadeiramente prontos para atuar dentro da visão multidisciplinar, aonde ninguém é mais importante que ninguém, a não ser o paciente e suas necessidades ?”

O texto abaixo foi obtido no site da Ed. ABRIL – PRÊMIO SAÚDE – 2013. Leitura recomendada!

A relação entre médicos e dentistas
por Giuseppe Alexandre Romito*

Há muito tempo a relação entre médicos e dentistas tem sido discutida. Porém, na minha opinião, com avanços pouco significativos na rotina diária da maioria dos profissionais.

Por uma questão histórica, sobre a qual não cabe discorrer neste momento em todos os seus detalhes, as escolas médica e odontológica se separaram. Um dos motivos foi o fato de se privilegiar a capacitação técnica dos futuros odontólogos, uma profissão que, de fato, requer um treinamento operatório específico, prova disso é que o diploma conferido para esse profissional é o de “cirurgião-dentista”, o que não acontece com os médicos; estes podem ou não ser cirurgiões.

Essa separação foi importante: o cirurgião-dentista (CD) brasileiro é reconhecido como um dos melhores do mundo. Mas trouxe também consequências na relação com os demais profissionais da saúde. É de fácil aceitação por parte desses profissionais e também pela população em geral a necessidade de haver uma boa relação entre médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, fonoaudiólogos, nutricionistas, com o objetivo final de melhoria da qualidade de vida dos pacientes. Já o CD parece estar sempre à parte ou distante nesse conceito, pois é visto como um profissional de perfil “técnico” e pouco relacionado com a saúde geral. Ou, de maneira mais simples: a boca parecer estar fora do corpo.

Parece lugar comum, mas é difícil entender por que os profissionais de ambos os lados aceitaram,e aceitam, por tanto tempo a ideia de que a cavidade bucal está “fora” do organismo. Não existe explicação biológica para esse fato!

Entretanto, quando avaliamos a literatura científica, verificamos que, na maioria dos diagnósticos, o tratamento realizado independe do conhecimento da condição da saúde bucal por parte médico. No caso do CD, esse conhecimento é importante, porém sem a profundidade necessária.

Esse quadro começou a mudar quando foi introduzido o conceito de “medicina periodontal”. Apesar de não concordar com essa nomenclatura, não posso deixar de destacar que, do ponto de vista de instigar a curiosidade de ambos os lados ou até de marketing, ela cumpre o seu papel.

A medicina periodontal é a relação bidirecional entre a condição sistêmica e bucal dos indivíduos. Apesar dessa bidirecionalidade, o aspecto mais abordado é sempre aquele no qual a condição periodontal (“doença gengival”) pode interferir em condições sistêmicas.

Não é o objetivo deste texto explorar todos os detalhes dessas relações, mas a literatura é abundante quando discutimos a relação da doença periodontal com diabetes mellitus, doença aterosclerótica, nascimento prematuro e bebês de baixo peso, doença renal crônica, doença pulmonar, entre outras. E, mais recentemente, até a melhoria da disfunção erétil foi associada ao tratamento da doença periodontal. Existe um trabalho muito citado que mostra que a área de conjuntivo ulcerado num paciente com doença periodontal de moderada a avançada equivaleria à área da sua palma da mão. Ou seja, o indivíduo convive diuturnamente com essa área exposta a bactérias e responsável por uma resposta imunológica constante que, em qualquer outra área do organismo, deixaria médicos extremamente preocupados. Porém, mais uma vez, parece não ser motivo de preocupação ou, o que acho mais provável, falta conhecimento para isso.

Da mesma forma, não podemos deixar de destacar que a formação do cirurgião-dentista, na maior parte das vezes, é precária em relação aos conhecimentos básicos da área da saúde geral, o que, além de dificultar o completo entendimento da cavidade bucal como parte de todo o organismo, também o intimida na discussão e inserção junto aos colegas médicos.

Ainda permanece a pergunta: por que todo o conhecimento científico produzido pela área odontológica não se reflete, na prática, em mudança de comportamento na rotina diária dos médicos?  Simplesmente porque o nível de evidência ainda não produz impacto no diagnóstico e/ou tratamento nas especialidades médicas relacionadas.

Entretanto, por uma outra via, a relação da saúde bucal com a saúde geral está se destacando por meio de processos legais. Nos Estados Unidos, alguns médicos e/ou dentistas estão sendo processados por não alertarem seus pacientes quanto a riscos e consequências médicas e/ou odontológicas de doenças diagnosticadas por ambos os profissionais. Para citar um exemplo: o diabete tipo 2 é um fator de risco comprovado de perda dentária. Alguns pacientes naquele país estão questionando os médicos por não os terem advertido em relação à saúde bucal. E esses profissionais estão sendo responsabilizados civil e criminalmente pelas perdas dentárias que poderiam ter sido evitadas com um tratamento preventivo adequado.

Independentemente de qualquer argumentação, acredito que o objetivo final de todos os profissionais da saúde é proporcionar melhor qualidade de vida aos indivíduos e, na dúvida, ser pró-paciente. Ou seja, se estamos cada vez mais preocupados não apenas com a saúde dos indivíduos no momento presente, mas com a repercussão que ela terá na sua longevidade, todos os fatores associados devem ser levados em consideração, não importa se com maior ou menor impacto “científico”.

É claro que esta discussão não se encerra aqui. Precisamos caminhar cada vez mais para que o tema saia da teoria (no máximo restrita aos meios acadêmicos médico e/ou odontológico) e seja aplicado na prática, pois a falta de conhecimento de ambos os lados não pode ser justificativa para escondermos o que de fato ocorre: a ausência de diálogo.

*Prof. Dr. Giuseppe Alexandre Romito, é professor titular de periodontia da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo.

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