Quem tem mais risco para as cáries e as doenças das gengivas – eles ou elas?

 In Profissionais da saúde

“Sexo deve ser considerado nos modelos de avaliação de risco para a periodontite.”

Mark A. Reynolds, DDS, Ph.D., Universidade de Maryland

Adaptado do site Dr. Bicuspid (Texto de 30 de agosto de 2010)

A descrição da odontologia e da antropologia para os riscos das doenças bucais, toma por base alguns termos comportamentais. Dois estudos recentes indicam que a mistura dos fatores biológicos e culturais, influenciam um crescimento do risco de cárie para as mulheres e da doença periodontal destrutiva para os homens.
Por exemplo, será que o número de gestações que uma mulher carrega em sua vida influenciam a prevalência do número de cáries que elas desenvolvem?

De acordo com a ADA, algumas mudanças de comportamento alimentar, que ocorrem durante a gravidez, podem contribuir para o desenvolvimento de cáries, especialmente se associadas com a diminuição da higiene bucal e o
aumento na ingestão de alimentos açucarados. Mas John Lukacs, Ph.D., professor de antropologia da Universidade de Oregon, acredita que mais de fatores comportamentais estão em jogo. “Tanto pelo lado biológico (genética, hormônios e história reprodutiva), como sob o ponto de vista antropológico (fatores comportamentais), sem falar de outros fatores – como a cultura baseada na divisão do trabalho pelo gênero e as preferências alimentares – desempenham um papel relevante para essa maior característica de risco para a carie em mulheres”, escreveu ele em um recente artigo no Oral Clínica Investigações.
Um fator biológico importante pode ser observado na dentição dos seres humanos de antes do advento dos alimentos processados pelas sociedades modernas, quando as taxas de cárie aumentaram ainda mais dramaticamente do
que em nossos ancestrais que viviam da caça, da coleta e agricultura.
“Os estrogênios desempenham um papel. É fato que o crescimento ainda mais intenso dos estrogênios, aumenta dramaticamente com a gravidez. O efeito cumulativo de registros múltiplos de gravidez, apresenta efeito negativo sobre a saúde bucal”, disse o pesquisador ao site DrBicuspid.com.

Dr. Lukacs apontou para alguns grandes, estudos recentes de adultos mostrando um aumento significativo da cárie e de obturações e perdas dentárias, em mulheres em idade fértil, às vezes com uma prevalência dobrada quando comparada a homens na mesma faixa etária. “À medida que você passar a observar ? ao longo da vida – as taxas de cárie para os homens e mulheres, vai perceber que elas são bastante semelhantes na infância”, disse ele.
“Isso começa a variar na adolescência, quando a diferença hormonal é maior. Nessa fase as mulheres começam a divergir, com uma taxa mais elevada de cárie. Então, quando você entrar no período reprodutivo, torna-se ainda mais
significativo o tamanho dessa diferença entre os sexos. O fato é que as mulheres são mais propensas a perder os dentes pela cárie?, acrescentou.

Dr. Lukács reconhece que as evidências ligando o aumento no número de cáries, com o ciclo gestacional é misto, mas ele acha que é uma simplificação atribuir o aumento do número de cáries em mulheres exclusivamente devido a sua capacidade de gestação. “Os antropólogos têm subestimado a complexidade da etiologia da cárie”, disse ele.
Embora ele tenha feito um grande estudo sobre a dentição dos povos pré-históricos da Índia, o estudo contemporâneo do Dr. Lukacs, em Portugal, assinalou também fatores culturais – tais como as restrições alimentares durante a gravidez e o ritual de jejuar, que podem levar a desnutrição e a maior risco para o bom estado bucal. As mulheres também têm menos acesso aos alimentos e ao atendimento odontológico, na Índia, por razões culturais (preferência ao filho homem em detrimento da filha mulher), criando um conjunto complexo de etiologias.

Outras diferenças biológicas entre homens e mulheres que podem ?estar em jogo? incluem, as possíveis diferenças genéticas na formação do esmalte, o fluxo salivar, a variação nas preferências alimentares e na prevalência de micróbios da cavidade oral. ?Muitos desses fatores ainda precisam ser confirmados?, diz o autor.

Homens e periodontite

Outro estudo recente sugere que as diferenças de gênero com base na resposta imune contribuiem para o aumento do risco de doença periodontal homens (Journal of Periodontology, 28 de abril, 2010).
“Os homens estão em maior risco para a periodontite que as mulheres”, conforme o pesquisador Mark A. Reynolds, DDS, Ph.D., presidente do departamento de periodontia da Universidade de Maryland Dental School, disse ao Dr. Bicuspid.com.
“Resultados similares em animais sugerem que os modelos atuais de risco a doença periodontal, com base em fatores ambientais e comportamentais, podem errar ao desconsiderar as diferenças entre os sexos.” Neste estudo, o Dr. Reynolds e seu co-autor, Harlan Shiau, DDS, DMSc., realizaram uma revisão sistemática da literatura (Medline, Embase e Scopus) e uma meta-análise para estimar as diferenças relacionadas ao sexo na prevalência da periodontite.

A partir de 12 de inquéritos prévios eles descobriram que o sexo apresentou associação significativa com a prevalência de periodontites, o que reflete uma diferença de 9% entre homens e mulheres (37,4% versus 28,1%, respectivamente), embora o efeito global do sexo, perante a meta-análise tenha sido relativamente pequeno. “Os resultados desta revisão apresentam provas refletindo uma maior prevalência de doença periodontal destrutiva em homens, se comparados às mulheres”, concluíram.
Mesmo tendo em consideração fatores como o fumo e a má higiene bucal, os homens podem sentir efeitos mais nocivos da inflamação periodontal do que as mulheres e menos proteção contra a ação dos patógenos microbianos que desempenham atuação de destaque no estabelecimento das doenças das gengivas. Isso os colocaria em maior risco para a doença periodontal do que as mulheres. “Sexo deve ser considerado nos modelos de avaliação do risco para periodontite,” disse o Dr. Reynolds.

Além disso, estudos em animais, tanto em estado selvagem e em cativeiro indicam uma maior prevalência de doença periodontal destrutiva entre os homens. Dr. Reynolds propõe que esta relação pode derivar dos hormônios sexuais circulantes, que atuam na modulação da resposta imune inata e adaptativa. Ele propõe também que alguns genes do cromossomo X podem atuar nesse sentido.
Os homens parecem ter uma forma mais pronunciada resposta imune inata, e as mulheres têm mais pronunciada a resposta imune adquirida, disse ele. Os corpos dos homens parecem responder à infecção e a lesão com uma reação mais geral e não específica para a invasão estabelecida, enquanto as mulheres têm uma vantagem acentuada quando se trata de imunidade adquirida, sobretudo na tomada de anticorpos.
Esses achados podem se tornar mais um guia importante para a aferição do risco bucal dos nossos pacientes. Pensem nisso!

Prof. Rodrigo Guerreiro Bueno de Moraes
Cirurgião-Dentista | Mestre em Odontologia pela Universidade Paulista | Membro da Sociedade Brasileira de Periodontia e da American Academy of Periodontology

Recent Posts