Reflexões para a odontologia brasileira.

 em Público em geral

Uma recente publicação da Dentistry Brasil reforça a importância de investigarmos as repercussões que as “novas culturas e modismos” trazem à sociedade brasileira. Dentre elas reforço a do quão fundamentais são os planos de saúde odontológicos. A idéia de que planos de saúde odontológicos são “caminhos sem volta para o futuro da profissão e responsáveis pela melhora nas condições de promoção de saúde através da boca” é cantado, em verso e prosa, pelos comerciantes desses serviços. Particularmente tenho minhas ressalvas quanto a esse tipo de produto, especialmente pela questão que envolve a tal “rede credenciada”, aquela que é reembolsada a valores pré-fixados (normalmente baixos demais) desvalorizando o profissional que assume a responsabilidade pelo tratamento do paciente “em nome do plano”.

A prova cabal disso é estatística; Notem que em menos de 10 anos, o número de usuários de planos odontológicos no Brasil quadruplicou. Em 2003, 4,4 milhões de brasileiros tinham um plano privado para ir ao dentista, hoje, são 16,8 milhões. Apesar do crescimento, pesquisas dos órgãos de classe da nossa odontologia apontam que apenas 15% da população brasileira vai ao dentista regularmente, inicia e termina um tratamento odontológico.

Pior é notar que esse número não varia muito do registrado ao início da pesquisa (2003) e contradiz o “discurso” de que ter um plano odontológico é garantia de melhor acesso à saúde para a população beneficiada. Sem hipocrisias, basta perguntar e constatará que os profissionais que atendem em rede credenciada notadamente se dedicam a causa, mas reconhecidamente preferem o atendimento particular e as condições de trabalho por ele oferecidas.

Na outra ponta, os pacientes que dispõe desses planos preferem uma forma de atendimento mais particular, aonde dentistas e pacientes são mais do que meros números ou endereços na listagem do livro do convênio. Defendo que os planos de saúde deveriam trabalhar sem lista ou rede credenciada, mas através do livre reembolso. Dessa forma o paciente poderia escolher o seu profissional livremente, sabendo que seria reembolsado por aquilo que lhe cobrassem, a taxas pré-estabelecidas pelos gestores do plano, dentro de valores ou porcentagens que cobrissem total ou parcialmente os tratamentos praticados pelos dentistas que cada um decidir ter, conforme o perfil do plano adquirido.

Baseio essa afirmação na definição de um eminente professor do curso de empreendedorismo da FGV/SP, que disse em tom textual durante uma das suas brilhantes palestras do curso que tive o privilégio de fazer: – ” A odontologia é uma profissão que exige grande empatia e acolhimento do paciente pelo dentista que ele escolhe. Essa é uma das profissões mais personalistas que conheço”. – ” Mesmo que tenha um plano de saúde, prezo mais pela indicação de alguém próximo ou pelo trabalho daquele em quem confio o tratamento da minha boca”. Se os planos querem colaborar para, de fato, melhorar os números da saúde no país, deveriam pensar neste caminho da liberdade e justiça no tratamento a dentistas e pacientes.

Agindo dessa forma, em dez anos teremos bem mais do que 15% da nossa população melhor atendida e coberta por todas as benesses da nossa profissão, bem como um crescimento justificado e sustentado da defesa desse segmento empresarial que tenta dominar a nossa profissão.

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