Você vai de dentes ou Implantes?

 em Público em geral

Existe um velho samba que diz… “com que roupa eu vou”. Sua letra bem-humorada e o “conflito” proposto na música, trazem a memória uma outra questão que ganhou proporção estratosférica. Diante de dentes comprometidos por doenças bucais – caso das cáries, gengivites e periodontites – existe relevância para a enorme quantidade de substituições dentárias propostas as pessoas?

Entre uma e outra roupagem proposta, para a sua boca, escolha a mais adequada a saúde e longevidade do seu sorriso. O seu dentista pode orientar e cooperar com a sua tomada de consciência e a decisão sobre o assunto.

Quais os critérios que precisam ser observados para fundamentar essa escolha?

A odontologia baseada em evidencias é a frase mais pronunciada por pesquisadores e apresentadores, para justificar o conjunto de procedimentos descritos para a cobertura das demandas dos nossos pacientes, a partir das melhores evidencias disponíveis para cada situação.

Uma recente edição do Periodontology 2000 mostra que a odontologia baseada em evidencias nasce da reunião entre a experiência clínica, as melhores evidencias obtidas pelas pesquisas científicas e a percepção dos pacientes sobre as propostas de intervenção (preventivas e/ou curativas), em questão.

Repetindo os grandes eventos do segmento, a última edição do congresso da American Academy of Periodontology (AAP), em Boston, apresentou o fórum de discussão sobre plano de tratamento, como uma das maiores audiências registradas.

Os apresentadores defenderam os seus diversos pontos de vista sobre as abordagens de tratamento, que entendiam mais apropriadas para a solução de um mesmo caso clinico.

Foi curioso notar que, diante de um mesmo diagnóstico de periodontite crônica, com evolução de nível moderado ao grave, acometendo incisivos e caninos superiores de uma paciente de meia idade ? os diferentes apresentadores cogitassem desde a criteriosa descontaminação dentária, associada ao eficaz controle do biofilme pelo paciente, passando pelos que preconizaram a inclusão de procedimentos cirúrgicos com finalidade regenerativa, incluindo o que postulou a associação de ferramentas da periodontia e da ortodontia, chegando aos que defenderam a substituição dos dentes por implantes.

O fórum também se preocupou em avaliar a opinião da platéia, através de um recurso digital, para checar a percepção geral sobre os diferentes planejamentos propostos pelos apresentadores.

Os resultados dessa pesquisa de opinião mostraram que o ?deslumbramento? pela aparente simplicidade gerada com a substituição de dentes por implantes, perde força diante da gama crescente de recursos disponíveis para a preservação e o reparo das estruturas originais.

Isso não significa a exclusão dos valiosos recursos da implantodontia da lista de instrumentos para a viabilização de um plano de tratamento baseado em evidencias. Serve, tão somente, para alertar que a longevidade dos implantes mostra similaridade com a dos dentes criteriosamente tratados? mesmo que de forma complexa ? pelas disciplinas de base clínica.

O paradigma do implante, como uma espécie de solução mágica, capaz de contra – indicar propostas terapêuticas e preventivas dos dentes comprometidos, foi derrubado pelos que atuam dentro do preceito da odontologia baseada em evidencias – que exige senso crítico, conhecimento e reciclagem periódica ? até mesmo para julgar os verdadeiros limites entre dentes e implantes.

Pacientes e os meios de comunicação começaram a se preocupar com a excessiva proposição de implantes para a solução de casos clínicos ao alcance da periodontia, da endodontia, da ortodontia, dos restauros e, principalmente, da prevenção.

Uma recente edição do jornal O Globo cogita que uma parcela significativa dos implantes executados poderia ser revista a partir de soluções voltadas a prevenção e a reparação dos dentes comprometidos.

Esse tipo de ?exposição midiática? é um importante contraponto as propagandas de rádio e televisão – que vendem os implantes como uma espécie de lanche do Mcdonalds, aonde o “cliente” entra, pede paga, come e se satisfaz – em curtíssimo espaço de tempo.

Como professor de especialização em periodontia, noto que apesar do sucesso de público e renda dos cursos de implantes, boa parte dos jovens recém-formados que apostam nessa pós-graduação, como o primeiro passo rumo ao Eldorado da odontologia, acabam retornando as nossas bancas ao perceberem os dissabores clínicos da escolha de um caminho, aonde os implantes representam o centro dos planos de tratamento.

?Não há outro critério da verdade, senão o crescimento do sentimento de poder”, disse o filósofo Friedrich Nietzsche. Essa citação remete a auto – limitação imposta pelos profissionais, que apostam todas as suas fichas na implantodontia como a solução para a nossa atividade profissional. Faça o que sugeriu o Nietzsche – torne o seu poder maior, apostando nos dentes com um entusiasmo, na pior das hipóteses, similar ao dos implantes.

Voltando a última palestra do evento da AAP, lembro que o coordenador do simpósio mostrou a bela solução, baseada em evidências, que implementou para o caso sugerido aos outros apresentadores. Ganhou quem apostou na preservação, reparo e controle – a longo prazo ? dos dentes daquela paciente.

Prof. Rodrigo Guerreiro Bueno de Moraes
Cirurgião-Dentista | Mestre em Odontologia pela Universidade Paulista | Membro da Sociedade Brasileira de Periodontia e da American Academy of Periodontology

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